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O sexto chakra

Postado por: Felipe Pinheiro

Na tradição hindu e entre algumas outras religiões, a presença de um terceiro olho entre as sobrancelhas (no hinduísmo, o sexto chakra, ou anja) denota uma capacidade intuitiva superior, supostamente relacionada a percepções extra-sensoriais e clarividência. É comum, entre os hindus, a utilização do tilaka, uma marca na testa, simbolizando o desenvolvimento deste chakra.

Estátua cambojana, mostrando Shiva com um terceiro olho entre as sobrancelhas.

O que muitos não sabem é que, na história evolutiva dos vertebrados, um “terceiro olho” é bastante bem distribuído entre diferentes linhagens, sugerindo que esta estrutura possuía e possui, em inúmeros grupos extintos e alguns viventes, um importante papel biológico. A pressão seletiva favorável ao surgimento de um olho voltado dorsalmente estaria, segundo alguns autores, relacionada ao modo de vida dos primeiros vertebrados: animais associados ao fundo marinho, para os quais uma percepção dorsal seria extremamente útil. Basta observar que, em animais bentônicos viventes, os olhos tendem a estar posicionados dorsalmente.

A origem embriológica dos olhos medianos de vertebrados é bem parecida com a da retina dos olhos laterais, os olhos “comuns”, formadores de imagens: todas estas estruturas originam-se a partir de células do diencéfalo (região central do cérebro, na qual está localizada, por exemplo, o tálamo e o hipotálamo). No entanto, embora alguns grupos de vertebrados possam ter desenvolvido olhos medianos com capacidade limitada de formar imagens, estas estruturas estão, normalmente, associadas à detecção de mudanças de luminosidade e reações fisiológicas do ciclo circadiano. Em lampreias, por exemplo, a detecção de luminosidade através do “terceiro olho” condiciona a produção de hormônios relacionados às atividades diurnas e noturnas de estágios larvais.

Dentre os vertebrados viventes, provavelmente, o que apresenta um “terceiro olho” mais bem desenvolvido é o tuatara (Sphenodon). Neste animal, único representante vivo de uma ordem de répteis bem distribuída no Mesozóico, o olho parietal possui estruturas semelhantes a uma córnea primitiva e, até mesmo, um tipo simples de lente. No tuatara, entretanto, este olho está coberto por uma escama opaca.

Dicinodonte, terápsido do Triássico brasileiro, evidenciando um forame parietal bem desenvolvido, onde estaria localizado um órgão pineal (exemplar depositado na coleção paleontológica da UFRGS).

A existência de órgãos deste tipo, no registro fóssil, é inferida a partir da presença de um forame entre os ossos parietais, que formam parte do teto craniano dos animais. Seguramente, olhos medianos estavam presentes em craniados “primitivos”, como osteotráceos e placodermes, também sendo observados em muitos peixes cartilaginosos e ósseos. Diápsidos primitivos, como Petrolacosaurus possuíam um forame parietal proeminente, situação também compartilhada por pararrépteis de forma geral. Forames parietais são, também, bem representados em sinápsidos (grupo ao qual pertencem os mamíferos). No entanto, a partir do período Triássico (o primeiro da Era Mesozóica), houve uma redução relativamente brusca do número de táxons apresentando estes órgãos. Nos dias de hoje, olhos medianos são observados em um número restrito de vertebrados.

Em formas atuais, nem sempre um olho mediano está associado a forames. Em alguns anuros, por exemplo, um órgão frontal, situado entre os dois olhos laterais, é aparentemente homólogo aos olhos parietais de outros animais.

Em linhagens que dariam origem a aves e mamíferos, as mesmas estruturas encontram-se presentes na forma de glândulas pineais, órgãos endócrinos que, além de inúmeras outras funções, controlam reações hormonais desencadeadas pelo ciclo circadiano (coincidência?).

Órgão frontal em um sapo, possivelmente homólogo a olhos medianos de outros vertebdaros. Fonte: wikipedia.

Mais sobre o assunto:

Liem, K. F. et al. 2001. Functional Anatomy of the Vertebrates – an evolutionary perspective (3ª edição). Brooks Cole, 784 p.

Romer, A. S. & Parsons, T. 1977. The Vertebrate Body (5ª edição). W.B. Saunders Company, 600 p.

Postado por Felipe Pinheiro

Em 1869, em uma palestra para a Royal Geological Society, em Londres, Thomas Henry Huxley, um dos mais importantes anatomistas ingleses da época, defendeu formalmente, a hipótese de que a origem das aves estava ligada intimamente aos dinossauros terópodes.

Naquela época, o conhecimento sobre dinossauros, de forma geral, ainda era incipiente (o primeiro dinossauro descrito formalmente data de 1824). Para sua teoria, Huxley baseou-se, primariamente, na osteologia de Megalosaurus. Segundo o anatomista, era possível reconhecer mais de 30 similaridades entre o esqueleto deste grande dinossauro carnívoro e os das atuais aves.

Edward Drinker Cope

Estas idéis, no entanto, são um pouco mais antigas. Já em 1864, Karl Gegenbaur, embriologista e anatomista de vertebrados, analisando a estrutura do calcanhar do pequeno dinossauro Compsognathus, propôs que este terópode teria sido uma forma intermediária entre as aves e os demais répteis. Edward Drinker Cope também já havia feito comparações entre terópodes e aves, evidenciando uma estreita relação entre Megalosaurus e avestruzes.

Como é comum quando hipóteses científicas revolucionárias são apresentadas, estas idéias não foram bem aceitas pelos acadêmicos. Várias teorias sobre a origem das aves já haviam sido propostas. No começo do século XIX, Jean Baptiste Lamarck propôs que as primeiras aves teriam surgido a partir de espécies de tartarugas (o botânico se utilizou do bico córneo comum a estes dois grupos de animais como parâmetro anatômico). Após a publicação de A Origem das Espécies, possíveis grupos precussores das aves variaram de pterossauros a diferentes grupos de arcossauromorfos basais. Alguns cientístas chegaram a propor uma origem polifilética para estes animais – vários grupos diferentes teriam evoluido e resultado na imensa variedade atual.

Na mesma reunião da Sociedade Geológica Real onde Huxley defendeu suas idéias, o paleontólogo Harry Seeley questionou que as similaridades entre Megalosaurus e aves poderiam ser fruto de convergência evolutiva. As características anatômicas comuns poderiam ter sido originadas a partir de adaptações ao hábito bípede.

No começo do século XX, a hipótese terópode perde terreno devido à descoberta do arcossauromorfo Eupakeria capensis. O paleontólogo Robert Broom, autor da descoberta, defendeu que os dinossauros terópodes seriam muito especializados para terem dado origem às aves. Dessa forma, estas, assim como os próprios terópodes, deveriam ter evoluido a partir de formas arcossauromorfas bípedes, similares ao Eupakeria.

Eupakeria, retirado de http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/22/Euparkeria_BW.jpg

Um dos principais argumentos dos críticos da hipótese terópode baseava-se na chamada Lei da irreversibilidade, segundo a qual uma estrutura anatômica, após ter sido perdida no decorrer da história evolutiva, não poderia nunca surgir novamente. Esta lei, que hoje sabemos não fazer muito sentido, era aplicada à uma das estruturas anatômicas mais característica das aves – a fúrcula (conhecida popularmente como “ossinho da sorte”). Esta estrutura é derivada da fusão das clavículas. O problema é que, até aquela época, a presença de clavículas não havia sido observada e nenhuma das espécies conhecidas de dinossauros. Dessa forma, de acordo com a lei da Irreversibilidade, as aves nunca poderiam ter sua origem vinculada a animais sem clavículas. No entanto, clavículas em dinossauros já eram conhecidas. Infelizmente, estas estruturas eram constantemente confundidas com outros elementos esqueletais, como aconteceu na descrição de Oviraptor – um terópode pertencente a uma linhagem bem próxima à das aves.

No começo dos anos 1960, John Ostrom, paleontólogo da universidade de Yale, vasculhando antigas coleções remanescentes das espedições paleontológicas de Barnum Brown, encontrou os restos de uma espécie de dinossauro ainda desconhecida para a Ciência. O paleontólogo batizou o novo animal de Deinonychus antirhopus. Este terópode de médio porte tornou-se, instantaneamente, um marco na história da Paleontologia de Vertebrados – após sua descoberta, a imagem de dinossauros como bestas lentas e estúpidas foi abandonada, dando lugar à ideia de animais ágeis, possivelmente de sangue quente, como é mostrado no filme Jurassic Park.

O estudo de Deinonychus marcou, também, o ressurgimento da hipótese terópode: o animal possuia, inquestionavelmente, inúmeras semelhanças anatômicas com Archaeopteryx, considerado, naquela época, a ave mais primitiva. Pouco tempo depois, o argumento da ausência de clavículas em dinossauros cái por terra – esta estrutura passa a ser reportada em inúmeros dinossauros, incluindo Allosaurus, Tyrannosaurus, oviraptorídeos, therizinosaurídeos, troodontídeos e dromaeossaurídeos.

O oviraptorídeo Citipati encubando seus ovos

Evidências adicionais corroborando a hipótese terópode logo vieram à tona. Uma das mais interessantes é a comprovação de hábitos de nidificação e incubação de ovos tipicamente avianos em oviraptorídeos. A microestrutura da casca dos ovos destes animais se assemelhava muito mais à condição presente em aves atuais do que àquela presente em crocodilos, por exemplo. Além disso, é conhecida a ocorrência de esqueletos deste tipo de dinossauro em postura de choco – os animais foram soterrados enquanto incubavam seus ovos.

Sinosauropteryx

No entanto, a evidência mais conclusiva quanto à origem dinossauriana das aves foi descoberta apenas em 1996, quando fazendeiros chineses desenterraram o esqueleto de um pequeno dinossauro terópode, batizado pelos pesquisadores de Sinosauropteryx prima. As características anatômicas deste animal permitiram-no ser classificado como um parente próximo de Compsognathus. O que chamou, porém, mais atenção foi a preservação, ao longo do dorso do animal, de uma cobertura plumulácea, formada por pequenos filamentos ramificados e com base oca, algo muito próximo do que era esperado para a estrutura das primeiras penas.

Após Sinosauropteryx, uma overdose de pequenos terópodes com penas, provenientes de rochas sedimentares chinesas, encheu as páginas dos mais importantes periódicos científicos. Alguns deles, diferentemente de Sinosauropteryx, já apresentavam penas extremamente bem desenvolvidas, algumas delas muito semelhantes às chamadas penas de voo das aves modernas (estruturas assimétricas e com vexilos fechados, podendo funcionar como um aerofólio). Como exemplos destes dinossauros, podemos citar Caudipteryx, Protarchaeopterys, Beipiaosaurus e Sinornithosaurus.

Em 2003, quando a comunidade científica já está acostumada com a idéia de dinossauros emplumados, mais um animal merece destaque na capa da revista britânica Nature. O dinossauro, batizado de Microraptor gui, possui penas de voo bem desenvolvidas tanto nos membros dianteiros quanto ao longo de toda a extensão dos membros traseiros! Essa característica peculiar faz com que o animal receba o apelido de “dinossauro de quatro asas”. Microraptor é interpretado como sendo um planador arborícola.

holótipo de Microraptor gui

Pouco tempo depois, a descrição de exemplares mais completos de Pedopenna, um animal posicionado filogeneticamente mais próximo das aves do que dos demais dinossauros, revela que este, também, possuia penas de voo bem desenvolvidas nos membros posteriores. A posterior descrição, em 2009, de Anchiornis, um troodontídeo basal, também com penas nos membros posteriores, nos revelou um interessante cenário: a presença de “quatro asas” em um troodontídeo basal, um compsognathídeo basal e uma ave basal sugere que esta seja uma característica primitiva, presente no ancestral comum mais recente destes três táxons. Desta forma, a condição “quatro asas” teria sido um importante estágio evolutivo na origem do voo das aves modernas.

Cladograma mostrando o posicionamento filogenético de Anchiornis, Microraptor e Pedopenna. Retirado de Witmer (2009).

Raros são os cientístas que, hoje, ainda adotam posições contrárias à hipótese terópode. A origem das aves dentro de Dinosauria é, segundo as palavras do paleontólogo Luis Chiappe, tão sólida cientificamente quanto a origem dos humanos dentro dos primatas.

Postado por: Felipe Pinheiro

Para começar, peço desculpas pela falta de atualização no blog. As ocupações cotidianas (especialmente uma disciplina bastante exigente de Paleontologia de Vertebrados) estão tornando o tempo livre cada vez mais raro. Espero, realmente, ter tempo para me dedicar mais em um futuro próximo.

Na última semana, um grupo de pesquisadores liderado pelo paleontólogo chinês Junchang Lü, nos brindou com a descrição de um pequeno pterossauro do Jurássico Médio da província de Liaoning, China. Os fósseis de Liaoning são mundialmente famosos não só pela sua espetacular preservação (comparável à dos fósseis da Formação Santana, na Bacia do Araripe) mas, principalmente, por sua aparente potencialidade para quebra de paradigmas: o último deles foi o achado de um dinossauro relativamente distante, evolutivamente, dos terópodes com uma cobertura do que parecem ser estruturas filamentosas semelhantes a penas.

Para entender o que há de tão especial neste pterossauro (batizado, por razões provavelmente óbvias a todos, de Darwinopterus), é necessário saber alguma coisa sobre a sistemática desse grupo de répteis voadores. Os pterossauros são, de forma geral, formados por dois grandes grupos. O mais antigo deles é um grupo parafilético denominado “Rhamphorhynchoidea”. Genericamente, os pterossauros deste grupo possuem um crânio não tão comprido (quando comparado com os do outro clado de que falaremos adiante), fenestras antorbitais e nasais não confluentes, pernas curtas e fracas, ligadas entre si por uma parte da membrana alar, além de uma longa cauda com uma estrutura de tecido mole em forma de remo em sua extremidade (evidente em várias espécies).  São animais pequenos e, como é apontado por várias linhas diferentes de evidências, arborícolas.

Rhamphorhynchus, um típico pterossauro ranforrincóide

Rhamphorhynchus, um típico pterossauro "ranforrincóide". Fonte da imagem: Wikipedia

O outro grande grupo é o clado Pterodactyloidea. Tal clado é apontado como monofilétco por todas as análises filogenéticas recentes e é formado por animais de tamanhos variados (desde alguns do tamanho de um pardal até outros com o porte de um avião pequeno),  com pernas mais robustas e separadas entre si, cauda curta, metacarpais alongados, crânio comprido,  fenestras antorbitais confluentes com as nasais e pescoço longo, além de outras características.

Pteranodon é um pterossauro pterodactilóide. Fonte da imagem: Wikipedia

Pteranodon é um pterossauro pterodactilóide. Fonte da imagem: Wikipedia

Os ranforrincóides são considerados como animais basais e os pterodactilóides derivados. Como é de se esperar, não se tinha (até agora) idéia de como pterossauros pterodactilóides surgiram a partir de animais ranforrincóides. Os primeiros já surgiam no registro com todas suas características diagnósticas bem definidas.

O inesperado, no entantao, acontece. Os fósseis chineses são, infelizmente, também famosos por suas falsificações. Como acontece também no Araripe, é comum encontrar fósseis “Frankesteins”: em busca de preços melhores por suas peças, vendedores de fósseis misturam pedaços de várias espécies diferentes, “embelezando” os espécimes e ganhando mais de turistas desavisados. Algumas raras vezes, as falsificações conseguem enganar mesmo os pesquisadores. No entanto, ao contrário do que poderia ser sugerido, Darwinopterus não é uma falsificação. Mais de 20 espécimes foram encontrados, sendo referidos ao novo gênero.

O que levantou tanto interesse neste peculiar animal chinês é que ele possui características tanto de pterossauros pterodactilóides (crânio alongado com fenestras antorbitais e nasais confluentes, pescoço comprido) quanto de ranforrincóides (cauda longa, metacarpais curtos, pernas delicadas). As características parecem formar módulos, misturando planos corporais diferentes no mesmo animal: uma cabeça e pescoço tipicamente pterodactilóide e um corpo característico de ranforrincóides.

Holótipo de Darwinopterus modularis. Fonte: Lü et al., 2009

Holótipo de Darwinopterus modularis. Fonte: Lü et al., 2009

Modelos de Evoluçao Modular, onde os caracteres se distribuem desigualmente em diferentes módulos de evolução independente já haviam sido propostos e debatidos na literatura. No entanto (ao menos segundo os autores) um bom exemplo deste tipo de fenômeno não era, até então, conhecido. O que Darwinopterus sugere é que uma cabeça e pescoço tipicamente pterodactilóides tenham evoluido mais cedo e, de certa forma, independentemente do resto do corpo do animal.

É sempre perigoso usar termos como “intermediário”. No entanto, é difícil imaginar um animal que mesclasse melhor características dos dois grandes grupos e tivesse mais a dizer sobre a transição evolutiva entre eles. Como é de se esperar, todo “intermediário” gera ainda mais questionamentos, já que é possível imaginar infinitas etapas de transição entre duas espécies distintas.

Referências:

Lü, J., Unwin, D. M., Jin, X., Liu, Y. & Ji, Q. 2009. Evidence for modular evolution in a long-tailed pterosaur with a pterodactyloid skull. Proceedings of the Royal Society B doi:10.1098/rspb.2009.1603

Salão de anatomia comparada do Museu de História Natural de La Plata, um ótimo lugar para se sentir pequeno.

(clique na foto para ampliar)

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Postado por: Felipe Pinheiro

O Estado do Ceará, já há algum tempo, vem sendo alvo de intensas pesquisas paleontológicas, o que se deve, principalmente, à Bacia do Araripe, inigualável depósito de fósseis do período Cretáceo, reconhecido globalmente tanto pela quantidade quanto pela qualidade de seu material fossilífero.

Talvez a excepcionalidade da Bacia do Araripe tenha contribuído para que algumas pequenas bacias sedimentares (Iguatu, Lima Campos, Icó e Malhada Vermelha), também cretáceas, localizadas na região centro-leste do Estado do Ceará, sejam alvo de pesquisas mais esporádicas. Tais bacias preservam, em suas rochas, um importante, e ainda pouco explorado, registro de vida cretácica.

Fragmento de teto e caixa craniana da S. jaguaribensis

Fragmento de teto e caixa craniana de S. jaguaribensis

No fim de 2005, uma expedição geológica realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou estudos de cunho estratigráfico nesta região. Em seus estudos, os pesquisadores registraram diversos afloramentos com ocorrência de fósseis e coletaram alguns espécimes. Um dos fósseis coletados, um pequeno fragmento craniano à primeira vista sem graça, foi identificado como pertencente a uma nova espécie de crocodilomorfo, descrita no último volume da revista Palaeontology e batizada de Susisuchus jaguaribensis (Fortier & Schultz, 2009). Os responsáveis pela descrição do novo animal foram os paleontólogos Daniel Costa Fortier e Cesar Leandro Schultz.

O novo crocodilomorfo se assemelha bastante com Susisuchus anatoceps, descrito para  a bacia sedimentar do Araripe, também no Ceará. S. anatoceps, e  S. jaguaribensis são os dois únicos animais conhecidos representantes da família Susisuchidae, que tem uma especial importância por representar, como é mostrado no artigo, o grupo-irmão de Eusuchia, clado a que pertencem todos os crocodilianos modernos. Assim, compõe uma parte importante do quebra-cabeça que revela as complexas afinidades filogenéticas dos crocodilomorfos.

S. jaguaribensis (A) e S. anatoceps, uma espécie intimamente relacionada (B)

S. jaguaribensis (A) e S. anatoceps, uma espécie intimamente relacionada (B)

Outro fato interessante é o de que o holótipo de S. jaguaribensis representa o mais antigo registro fóssil de crocodilomorfo do Brasil.

Esta nova descoberta é apenas uma pequena amostra do quanto as pequenas “bacias de Iguatu” são interessantes do ponto de vista paleontológico. A fauna nelas registradas são o testemunho de um importante evento: essas bacias foram formadas no momento em que as placas sul-americana e africana estavam em processo de separação.

Mais pesquisas e trabalhos de campo nestas bacias sedimentares estão sendo realizados e podemos esperar que as bacias de Iguatu nos revelem agradáveis surpresas em um futuro próximo!


Referências:

Fortier, D.C.; Schultz, C. L. 2009. A new neosuchian crocodylomorph (Crocodyliformes, Mesoeucrocodylia) from the early Cretaceous of birth-east Brazil. Palaeontology 52(5) pp. 991-1007.


O novo crocodilomorfo se assemelha bastante com Susisuchus anatoceps, descrito para  a bacia sedimentar do Araripe, também no Ceará. S. anatoceps, e  S. jaguaribensis são os dois únicos animais conhecidos representantes da família Susisuchidae, que tem uma especial importância por representar, como é mostrado no artigo, o grupo-irmão de Eosuchia, clado a que pertencem todos os crocodilianos modernos. Assim, compõe uma parte importante do quebra-cabeça que revela as complexas afinidades filogenéticas dos crocodilomorfos.

Prestosuchus chiniquensis, um rauissuquídeo do Triássico do rio Grande do Sul.

prestosuchus

Material em exibição no Museu de Paleontologia Irajá Damiani Pinto – UFRGS

Postado por: Felipe Pinheiro

A origem dos vertebrados continua sendo amplamente debatida no meio científico. Apesar do grupo ser consensualmente monofilético e sustentado por características bem definidas, seu posicionamento dentro dos deuterostomados continua incerto. Os vertebrados fazem parte de um grupo maior, o dos cordados, cuja monofilia é praticamente unânime entre os cientistas (embora, como veremos a seguir, esteja sendo questionada mais recentemente). As características que unem os cordados são, principalmente: presença da notocorda, um bastão fibroso flexível, que dá sustentação ao corpo do animal; tubo nervoso dorsal; fendas faringeais; presença de um órgão chamado endóstilo (forma a hipófise nos vertebrados) e presença de uma cauda pós anal, utilizada primitivamente para o deslocamento.

Os deuterostomados, grupo a qual nós, vertebrados, pertencemos, é formado por organismos que tem em comum entre si o fato de que, em seu desenvolvimento embrionário, o blastóporo (abertura que surge em uma das fases do desenvolvimento) origina o ânus. Nos demais animais, esta abertura dará origem, primitivamente, à boca. Além dos vertebrados, são deuterostomados os equinodermos (estrelas, ouriços e pepinos do mar), os tunicados (ascídias), os cefalocordados (anfioxos), outros grupos viventes menos conhecidos e alguns grupos fósseis de posicionamento incerto. As afinidades entre os deuterostomados são motivo de controvérsia, com várias diferentes filogenias propostas (baseadas tanto em dados morfológicos quanto moleculares):

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Principais filogenias propostas para deuterostomados. Figura retirada de Benton (2005).

Observe que, na figura acima, dois dos três cladogramas apresentados agrupam os cefalocordados junto aos vertebrados (Euchordata). A adoção de Cephalochordata como grupo-irmão de Vertebrata é a concepção clássica (presente em praticamente todos os livros-textos de biologia). Ela se fundamenta principalmente no fato de que estes dois grupos compartilham entre si a presença de somitos, uma musculatura segmentada em pequenas porções em forma de V. O cladograma “b” agrupa os vertebrados e os tunicados em um clado chamado Olfactoria. Este clado estaria baseado no compartilhamento entre estes dois grupos, de áreas olfatórias especializadas na cavidade bucal. No entanto, esta proposta era, até recentemente, rejeitada pela maior parte dos pesquisadores.

Em 2006, no entanto, um artigo publicado na revista Nature colocou nossas concepções sobre a origem dos vertebrados em xeque: uma análise filogenética molecular baseada em uma amostragem de 146 genes nucleares de diversos animais protostômios e deuterostômios resultou em um cladograma em que os tunicados formariam o grupo-irmão dos vertebrados. Ou seja, a hipótese dos Olfactórios volta à tona. Neste cladograma, também ao contrário do que seria de se esperar pelo senso comum, os cefalocordados formam um clado junto aos equinodermados (Delsuc et al., 2006):

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Apesar de o agrupamento dos cefalocordados com os equinodermados, segundo o artigo, ter apenas um grau moderado de confiabilidade, ele refutaria a monofilia de Chordata.

Este estudo sugere que caracteres como os miômeros surgiram, na verdade, precocemente na linhagem evolutiva dos deuterostomados, sendo perdidos posteriormente nos tunicados (e, caso a hipótese da monofilia do clado Echinodermata+Cephalochordata seja válida, também nos equinodermados).

Essa nova visão sobre as relações entre os deuterostomados nos leva a refletir sobre um grande problema na concepção geral da Evolução: a idéia errônea de que um grupo, por possuir maior grau de complexidade, deve ser considerado mais derivado. O próprio nome do táxon Euchordata (“cordados verdadeiros”) é reflexo de uma idéia preconceituosa: aqueles cordados mais complexos são agrupados junto aos vertebrados, constituindo os verdadeiros cordados. Os tunicados, segundo os autores, não devem ser considerados “primitivos” e sim um grupo derivado de cordados com estilos de vida extremamente especializados.

Em posts futuros, comentaremos mais sobre as teorias atuais sobre a origem dos vertebrados.

Referências:

Benton, M. J. 2005. Vertebrate Paleontology. 3rd ed. Oxford: Blackwell.

Desluc, F.; Brinkmann, H.; Chourrout, D. & Philippe, H. 2006. Tunicates and not cephalochordates are the closest living relatives of vertebrates. Nature, 439(23), p. 965-968.

Haikouichthys

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