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Archive for setembro \30\UTC 2009

Postado por: Felipe Pinheiro

O Estado do Ceará, já há algum tempo, vem sendo alvo de intensas pesquisas paleontológicas, o que se deve, principalmente, à Bacia do Araripe, inigualável depósito de fósseis do período Cretáceo, reconhecido globalmente tanto pela quantidade quanto pela qualidade de seu material fossilífero.

Talvez a excepcionalidade da Bacia do Araripe tenha contribuído para que algumas pequenas bacias sedimentares (Iguatu, Lima Campos, Icó e Malhada Vermelha), também cretáceas, localizadas na região centro-leste do Estado do Ceará, sejam alvo de pesquisas mais esporádicas. Tais bacias preservam, em suas rochas, um importante, e ainda pouco explorado, registro de vida cretácica.

Fragmento de teto e caixa craniana da S. jaguaribensis

Fragmento de teto e caixa craniana de S. jaguaribensis

No fim de 2005, uma expedição geológica realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou estudos de cunho estratigráfico nesta região. Em seus estudos, os pesquisadores registraram diversos afloramentos com ocorrência de fósseis e coletaram alguns espécimes. Um dos fósseis coletados, um pequeno fragmento craniano à primeira vista sem graça, foi identificado como pertencente a uma nova espécie de crocodilomorfo, descrita no último volume da revista Palaeontology e batizada de Susisuchus jaguaribensis (Fortier & Schultz, 2009). Os responsáveis pela descrição do novo animal foram os paleontólogos Daniel Costa Fortier e Cesar Leandro Schultz.

O novo crocodilomorfo se assemelha bastante com Susisuchus anatoceps, descrito para  a bacia sedimentar do Araripe, também no Ceará. S. anatoceps, e  S. jaguaribensis são os dois únicos animais conhecidos representantes da família Susisuchidae, que tem uma especial importância por representar, como é mostrado no artigo, o grupo-irmão de Eusuchia, clado a que pertencem todos os crocodilianos modernos. Assim, compõe uma parte importante do quebra-cabeça que revela as complexas afinidades filogenéticas dos crocodilomorfos.

S. jaguaribensis (A) e S. anatoceps, uma espécie intimamente relacionada (B)

S. jaguaribensis (A) e S. anatoceps, uma espécie intimamente relacionada (B)

Outro fato interessante é o de que o holótipo de S. jaguaribensis representa o mais antigo registro fóssil de crocodilomorfo do Brasil.

Esta nova descoberta é apenas uma pequena amostra do quanto as pequenas “bacias de Iguatu” são interessantes do ponto de vista paleontológico. A fauna nelas registradas são o testemunho de um importante evento: essas bacias foram formadas no momento em que as placas sul-americana e africana estavam em processo de separação.

Mais pesquisas e trabalhos de campo nestas bacias sedimentares estão sendo realizados e podemos esperar que as bacias de Iguatu nos revelem agradáveis surpresas em um futuro próximo!


Referências:

Fortier, D.C.; Schultz, C. L. 2009. A new neosuchian crocodylomorph (Crocodyliformes, Mesoeucrocodylia) from the early Cretaceous of birth-east Brazil. Palaeontology 52(5) pp. 991-1007.


O novo crocodilomorfo se assemelha bastante com Susisuchus anatoceps, descrito para  a bacia sedimentar do Araripe, também no Ceará. S. anatoceps, e  S. jaguaribensis são os dois únicos animais conhecidos representantes da família Susisuchidae, que tem uma especial importância por representar, como é mostrado no artigo, o grupo-irmão de Eosuchia, clado a que pertencem todos os crocodilianos modernos. Assim, compõe uma parte importante do quebra-cabeça que revela as complexas afinidades filogenéticas dos crocodilomorfos.

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Prestosuchus chiniquensis, um rauissuquídeo do Triássico do rio Grande do Sul.

prestosuchus

Material em exibição no Museu de Paleontologia Irajá Damiani Pinto – UFRGS

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Postado por: Felipe Pinheiro

A origem dos vertebrados continua sendo amplamente debatida no meio científico. Apesar do grupo ser consensualmente monofilético e sustentado por características bem definidas, seu posicionamento dentro dos deuterostomados continua incerto. Os vertebrados fazem parte de um grupo maior, o dos cordados, cuja monofilia é praticamente unânime entre os cientistas (embora, como veremos a seguir, esteja sendo questionada mais recentemente). As características que unem os cordados são, principalmente: presença da notocorda, um bastão fibroso flexível, que dá sustentação ao corpo do animal; tubo nervoso dorsal; fendas faringeais; presença de um órgão chamado endóstilo (forma a hipófise nos vertebrados) e presença de uma cauda pós anal, utilizada primitivamente para o deslocamento.

Os deuterostomados, grupo a qual nós, vertebrados, pertencemos, é formado por organismos que tem em comum entre si o fato de que, em seu desenvolvimento embrionário, o blastóporo (abertura que surge em uma das fases do desenvolvimento) origina o ânus. Nos demais animais, esta abertura dará origem, primitivamente, à boca. Além dos vertebrados, são deuterostomados os equinodermos (estrelas, ouriços e pepinos do mar), os tunicados (ascídias), os cefalocordados (anfioxos), outros grupos viventes menos conhecidos e alguns grupos fósseis de posicionamento incerto. As afinidades entre os deuterostomados são motivo de controvérsia, com várias diferentes filogenias propostas (baseadas tanto em dados morfológicos quanto moleculares):

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Principais filogenias propostas para deuterostomados. Figura retirada de Benton (2005).

Observe que, na figura acima, dois dos três cladogramas apresentados agrupam os cefalocordados junto aos vertebrados (Euchordata). A adoção de Cephalochordata como grupo-irmão de Vertebrata é a concepção clássica (presente em praticamente todos os livros-textos de biologia). Ela se fundamenta principalmente no fato de que estes dois grupos compartilham entre si a presença de somitos, uma musculatura segmentada em pequenas porções em forma de V. O cladograma “b” agrupa os vertebrados e os tunicados em um clado chamado Olfactoria. Este clado estaria baseado no compartilhamento entre estes dois grupos, de áreas olfatórias especializadas na cavidade bucal. No entanto, esta proposta era, até recentemente, rejeitada pela maior parte dos pesquisadores.

Em 2006, no entanto, um artigo publicado na revista Nature colocou nossas concepções sobre a origem dos vertebrados em xeque: uma análise filogenética molecular baseada em uma amostragem de 146 genes nucleares de diversos animais protostômios e deuterostômios resultou em um cladograma em que os tunicados formariam o grupo-irmão dos vertebrados. Ou seja, a hipótese dos Olfactórios volta à tona. Neste cladograma, também ao contrário do que seria de se esperar pelo senso comum, os cefalocordados formam um clado junto aos equinodermados (Delsuc et al., 2006):

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Apesar de o agrupamento dos cefalocordados com os equinodermados, segundo o artigo, ter apenas um grau moderado de confiabilidade, ele refutaria a monofilia de Chordata.

Este estudo sugere que caracteres como os miômeros surgiram, na verdade, precocemente na linhagem evolutiva dos deuterostomados, sendo perdidos posteriormente nos tunicados (e, caso a hipótese da monofilia do clado Echinodermata+Cephalochordata seja válida, também nos equinodermados).

Essa nova visão sobre as relações entre os deuterostomados nos leva a refletir sobre um grande problema na concepção geral da Evolução: a idéia errônea de que um grupo, por possuir maior grau de complexidade, deve ser considerado mais derivado. O próprio nome do táxon Euchordata (“cordados verdadeiros”) é reflexo de uma idéia preconceituosa: aqueles cordados mais complexos são agrupados junto aos vertebrados, constituindo os verdadeiros cordados. Os tunicados, segundo os autores, não devem ser considerados “primitivos” e sim um grupo derivado de cordados com estilos de vida extremamente especializados.

Em posts futuros, comentaremos mais sobre as teorias atuais sobre a origem dos vertebrados.

Referências:

Benton, M. J. 2005. Vertebrate Paleontology. 3rd ed. Oxford: Blackwell.

Desluc, F.; Brinkmann, H.; Chourrout, D. & Philippe, H. 2006. Tunicates and not cephalochordates are the closest living relatives of vertebrates. Nature, 439(23), p. 965-968.

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