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Archive for abril \15\UTC 2011

O sexto chakra

Postado por: Felipe Pinheiro

Na tradição hindu e entre algumas outras religiões, a presença de um terceiro olho entre as sobrancelhas (no hinduísmo, o sexto chakra, ou anja) denota uma capacidade intuitiva superior, supostamente relacionada a percepções extra-sensoriais e clarividência. É comum, entre os hindus, a utilização do tilaka, uma marca na testa, simbolizando o desenvolvimento deste chakra.

Estátua cambojana, mostrando Shiva com um terceiro olho entre as sobrancelhas.

O que muitos não sabem é que, na história evolutiva dos vertebrados, um “terceiro olho” é bastante bem distribuído entre diferentes linhagens, sugerindo que esta estrutura possuía e possui, em inúmeros grupos extintos e alguns viventes, um importante papel biológico. A pressão seletiva favorável ao surgimento de um olho voltado dorsalmente estaria, segundo alguns autores, relacionada ao modo de vida dos primeiros vertebrados: animais associados ao fundo marinho, para os quais uma percepção dorsal seria extremamente útil. Basta observar que, em animais bentônicos viventes, os olhos tendem a estar posicionados dorsalmente.

A origem embriológica dos olhos medianos de vertebrados é bem parecida com a da retina dos olhos laterais, os olhos “comuns”, formadores de imagens: todas estas estruturas originam-se a partir de células do diencéfalo (região central do cérebro, na qual está localizada, por exemplo, o tálamo e o hipotálamo). No entanto, embora alguns grupos de vertebrados possam ter desenvolvido olhos medianos com capacidade limitada de formar imagens, estas estruturas estão, normalmente, associadas à detecção de mudanças de luminosidade e reações fisiológicas do ciclo circadiano. Em lampreias, por exemplo, a detecção de luminosidade através do “terceiro olho” condiciona a produção de hormônios relacionados às atividades diurnas e noturnas de estágios larvais.

Dentre os vertebrados viventes, provavelmente, o que apresenta um “terceiro olho” mais bem desenvolvido é o tuatara (Sphenodon). Neste animal, único representante vivo de uma ordem de répteis bem distribuída no Mesozóico, o olho parietal possui estruturas semelhantes a uma córnea primitiva e, até mesmo, um tipo simples de lente. No tuatara, entretanto, este olho está coberto por uma escama opaca.

Dicinodonte, terápsido do Triássico brasileiro, evidenciando um forame parietal bem desenvolvido, onde estaria localizado um órgão pineal (exemplar depositado na coleção paleontológica da UFRGS).

A existência de órgãos deste tipo, no registro fóssil, é inferida a partir da presença de um forame entre os ossos parietais, que formam parte do teto craniano dos animais. Seguramente, olhos medianos estavam presentes em craniados “primitivos”, como osteotráceos e placodermes, também sendo observados em muitos peixes cartilaginosos e ósseos. Diápsidos primitivos, como Petrolacosaurus possuíam um forame parietal proeminente, situação também compartilhada por pararrépteis de forma geral. Forames parietais são, também, bem representados em sinápsidos (grupo ao qual pertencem os mamíferos). No entanto, a partir do período Triássico (o primeiro da Era Mesozóica), houve uma redução relativamente brusca do número de táxons apresentando estes órgãos. Nos dias de hoje, olhos medianos são observados em um número restrito de vertebrados.

Em formas atuais, nem sempre um olho mediano está associado a forames. Em alguns anuros, por exemplo, um órgão frontal, situado entre os dois olhos laterais, é aparentemente homólogo aos olhos parietais de outros animais.

Em linhagens que dariam origem a aves e mamíferos, as mesmas estruturas encontram-se presentes na forma de glândulas pineais, órgãos endócrinos que, além de inúmeras outras funções, controlam reações hormonais desencadeadas pelo ciclo circadiano (coincidência?).

Órgão frontal em um sapo, possivelmente homólogo a olhos medianos de outros vertebdaros. Fonte: wikipedia.

Mais sobre o assunto:

Liem, K. F. et al. 2001. Functional Anatomy of the Vertebrates – an evolutionary perspective (3ª edição). Brooks Cole, 784 p.

Romer, A. S. & Parsons, T. 1977. The Vertebrate Body (5ª edição). W.B. Saunders Company, 600 p.

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